"Ela está avisando a morte"
Certamente, alguém já ouviu essas duas frases quando se fala da Coruja Rasga-Mortalha, também conhecida como coruja Suindara, coruja branca, coruja das torres ou ainda coruja de Igreja. Essa espécie de coruja é nomeada cientificamente como Tyto alba (da família Tytonidae) e carrega, além de sua beleza, uma lenda que muitos contam e ainda se amedrontam: A lenda da Rasga-Mortalha.
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| Coruja Tyto alba, conhecida como Rasga Mortalha |
Muitas estórias são contadas por populares a respeito da origem da Rasga-Mortalha, por muitas vezes só mudam os nomes dos personagens, mas vou contar a versão que o meu avô me contou.
Diz a lenda, que no século XVIII, num vilarejo do ducado da Família Mascarenhas havia uma moça de longos cabelos lisos e negros, de pele alva e pálida por nome Suindara. De beleza incomum, a jovem aos seus vinte e poucos anos era uma moça culta e letrada para a época, apesar de sua origem humilde. Seu pai, homenzarrão de barba preta grande e descuidada chamava-se Eliel, por alcunha o bruxo, sempre de cachimbo na boca, tinha a fama de ser um homem vingativo e misterioso. Alguns comentavam que ele era tido como bruxo mais por sua aparência do que por saberem de seus feitiços.
Suindara, tinha o estranho costume de ir a todos os sepultamentos e velórios do vilarejo, fazendo uma espécie de trabalho voluntário de carpideira, chorando pelos defuntos apesar de não ter parentesco e nem muita afinidade pelo mesmo ou pela família, por esse motivo Suindara recebeu a alcunha de Coruja Branca.
A Duquesa de Mascarenhas já há anos preparava o casamento de Fernandes, seu único filho, com a filha do Marquês de Melo, Cláudia. Entretanto, como que por obra do destino, a Duquesa tivera seus planos frustrados pois Fernandes apaixonara-se por Suindara.
De ódio a Duquesa, conhecida por sua crueldade para com os que não eram da nobreza, ardia. A medida que Fernandes se envolvia com Suindara ia amadurecendo uma ideia macabra da Duquesa de dar um fim a jovem moça. A Duquesa arquitetou com dois de seus empregados a morte de Suindara dos mortos, como ela a chamara. Ela mandou um recado por uma de suas empregadas, assinadas como Fernandes, marcando um encontro, que dizia:
"Meu amor, me encontre hoje à meia-noite por traz da cripta azul do cemitério, tenho uma surpresa para você."
Suindara não hesitou, pulou a janela da choupana de sua casa escondida de seu pai e foi ao encontro forjado. Mal sabia ela se encontraria com a morte. Ao chegar no local combinado, seus algoz já estava a sua espera e a assassinou com diversos golpes de punhal. Suindara agonizou no chão do cemitério e foi encontrada logo pela manhã pelo coveiro que de imediato foi ao encontro de Eliel, o bruxo. O mesmo já se encontrava em desespero a procura de sua filha.
- Todo aquele que o crime cometeu aparecerá e se arrependerá, disse o bruxo!
Dizem as pessoas que Fernandes, já de casamento marcado, ao saber do acontecido pagou o velório mais luxuoso já visto em todo o Ducado dos Mascarenhas para sua amada, construindo um grande mausoléu no cemitério e erguendo uma estátua de uma grande coruja sobre o seu túmulo.
Eliel estava insano por vingança, invocou entidades por diversas noites até descobrir os assassinos de sua amada filha. Conta a estória que certa madrugada, o bruxo foi até o mausoléu de Suindara e invocou espíritos macabros, realizara um feitiço proibido muito antigo que aprendeu com escravos africanos. O espírito de Suindara saiu da cova e rodopiou no ar subindo e descendo naquele lugar, parando em frente ao macabro Eliel de olhos vermelhos cor de sangue. O Bruxo sussurrou àquele espírito o dome das pessoas que cometeram a barbárie.
Diz a lenda que o espírito entrou na estátua em forma de coruja que lá havia e esta ganhou vida e sumiu na noite. A coruja mística chegou então ao seu algoz, que se encontrara bêbado na sua humilde barraca e o acordou com um grande grito. Alguns contam que ele ainda gritou o nome de Suindara, mas foi encontrado sem vida no dia seguinte.
A outra empregada, aquela que entregou o recado que levara Suindara ao encontro da morte, apavorou-se ao saber da notícia. Quando fora dormir naquela noite sentiu um grande arrepio na espinha ao escutar um rasgo macabro vindo de sua janela. Não se sabe a causa mortis, mas essa empregada amanheceu desfalecida e com um aspecto de terror e suas roupas rasgadas.
Uma certa noite, após esses acontecimentos, o Duque de Mascarenhas e seu filho Fernandes viajaram a negócios, deixando a Duquesa no castelo do ducado. Fizera quase 1 ano após a morte de Suindara, a mandante do assassinato já esquecera do que se passou, mas nessa noite, de forma incomum ela lembrara-se da chamada, Coruja Branca. Nessa noite, ela verificara diversas vezes as janelas de seus aposentos para ter certeza que estavam trancadas, mas ao deitar-se para dormir escutou um horrendo som de roupas rasgando. Começara a sua frio e os pelos do braço se ouriçaram, os gritos da Coruja se aproximavam e aumentavam a tensão naquele quarto, foi então que a Duquesa notou uma silhueta na janela aberta e, incrivelmente, já sabia que se tratava de Suindara que viera dos mortos para vingar seu sangue.
Nessa noite, todo o vilarejo escutara os rasgos da coruja, como quem rasgas uma roupa de linho ou de seda e os gritos horripilantes da Duquesa. Dizem que os guardas dos nobres chegaram aos aposentos encontraram uma cena de assassinato, sangue por todos os cantos do quarto e todas as roupas rasgadas, inclusive as que estavam dentro do armário do Duque, a Duquesa encontrava-se sem vida sobre a sua cama.
Desde essa noite, quando uma pessoa estava em seu leito de morte, uma coruja branca sentava no telhado ou na janela de sua casa como quem está avisando da morte e no outro dia a moribundo falecia. Até hoje há a crença de que se uma Coruja Branca, que muitos apelidaram de Rasga-Mortalha, piar sentada na casa de alguém significa sinal de morte para alguém da casa.
Verdade ou não, ainda hoje no Norte e no Nordeste do Brasil se tem essa superstição e muitos têm aversão à tal Rasga-Mortalha.
Abaixo, um vídeo amador de uma Coruja Rasga-Mortalha dando seus "gritos" característicos.



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